P O R T A D A                 Texto    
      Edson Bueno de Camargo   punto de encuentro
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Poemas


Traducción al español:
Leonor Domene Pedrão

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sou um

sou um espantalho amarrado em cruz
enquanto o vento quebra as pontas do milharal

ovos de lagartixa
abandonados
na tranqüilidade
das poeiras esquecidas

o vento molda
no campo
os sinais de sua passagem

assopram os mortos
preceitos
somente
o ouvido atento
percebe

nuvem de fumo
rodopios de fuligem
em torno da chama da vela

Calixto
completa sua órbita em torno de Júpiter
enquanto uma abelha
agoniza
no frio abraço da brisa
sobre a soleira da porta

 

 

 

 

removo do

removo
do tempo passado
o mofo, as traças a teia

com tal
matéria prima
escrevo palavras soltas
inventariadas com sutil forma
com o adesivo do verso
numa folha em branco

relógios
são caixas - prisões
que nos devoram
com sutileza
e correntes dentadas
por dentro

sinta
hoje não é mais que sonhar
acordado estando

qual realidade descreve
o que de fato
é verdade

o sentido (oculto) das coisas
quase sempre se perde

paredes
(mesmo as de vidro)
são masmorras por certo
nos comprimem a morte
de forma lenta e gradual
sem ao menos sair do lugar

o pensamento
tenta manter-nos
carne e osso
mas devaneio

sou um espantalho amarrado em cruz
enquanto o vento quebra as pontas do milharal

 

 

 

 

rentes ao chão

flores brancas diminutas
crescem rentes ao chão
trevos de três folhas
espigas de azedinha

respiro do porão
escuro
grade e treliça de ferro

mais
um verão chuvoso
infância e solidão

não havia ainda
a poesia

no entanto
goiabas verdes
proliferavam os quintais

 

 

 

 

dúctil

lágrimas
são locais
onde fadas
forjam
asas de cristal
num vidro
tão fino
que se torna
aço maleável

 

 

 

 

olho é peixe

escamas
e sangue frio

o olho é
peixe

não olho de peixe

o globo nada
na cavidade
aquário
do crânio

o corpo
maré salgada
água de dentro
da limpeza
do peixe

em arrebentações
olhos se rebelam
ondas encapeladas

rio salg(r)ados
torrentes
de soro e sono

 

 

 

 

artífice

o poeta
como o oleiro
é um artífice

das cinzas
do tempo
faz
o barro
para seu ofício

amalgamando as palavras
letra por letra
retirando pedras e impurezas

moldar
até dar a forma
que acha perfeita

depois as abandona
ao fogo lento
do esquecimento

deixa secar
em fundo de gavetas

aos poemas/vasos
que sobreviverem
dará nome e novo alento

mas
quem lhes verão a arte
serão outros

 

 

 

 

Mississipi

ainda vejo o sangue (ou não)
em minhas mãos

lavei na água limpa
sobre o reflexo da lua
(vi na sombra o lobo)

ou era dia e não me lembro?

Bourbon do Mississipi
ouro dentro do vidro
luminescência e torpor

águas que correm silentes
pesado jugo (escuro)
(navios e almas carregas)

nuvens negras recobrem
poças de água
convidam à dança

asas quebradas
anjos lamentam nas torres
não o fim do vôo
mas nossa amarga sorte

hoje
lágrimas de ouro
tornarão mais suave

 

 

Traducción al español: Leonor Domene Pedrão

   
             
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