|
sou
um
sou
um espantalho amarrado em cruz
enquanto o vento quebra as pontas do milharal
ovos
de lagartixa
abandonados
na tranqüilidade
das poeiras esquecidas
o
vento molda
no campo
os sinais de sua passagem
assopram
os mortos
preceitos
somente
o ouvido atento
percebe
nuvem
de fumo
rodopios de fuligem
em torno da chama da vela
Calixto
completa sua órbita em torno de Júpiter
enquanto uma abelha
agoniza
no frio abraço da brisa
sobre a soleira da porta
removo
do
removo
do tempo passado
o mofo, as traças a teia
com
tal
matéria prima
escrevo palavras soltas
inventariadas com sutil forma
com o adesivo do verso
numa folha em branco
relógios
são caixas - prisões
que nos devoram
com sutileza
e correntes dentadas
por dentro
sinta
hoje não é mais que sonhar
acordado estando
qual
realidade descreve
o que de fato
é verdade
o
sentido (oculto) das coisas
quase sempre se perde
paredes
(mesmo as de vidro)
são masmorras por certo
nos comprimem a morte
de forma lenta e gradual
sem ao menos sair do lugar
o
pensamento
tenta manter-nos
carne e osso
mas devaneio
sou
um espantalho amarrado em cruz
enquanto o vento quebra as pontas do milharal
rentes ao chão
flores brancas diminutas
crescem rentes ao chão
trevos de três folhas
espigas de azedinha
respiro do porão
escuro
grade e treliça de ferro
mais
um verão chuvoso
infância e solidão
não
havia ainda
a poesia
no
entanto
goiabas verdes
proliferavam os quintais
dúctil
lágrimas
são locais
onde fadas
forjam
asas de cristal
num vidro
tão fino
que se torna
aço maleável
olho
é peixe
escamas
e sangue frio
o
olho é
peixe
não
olho de peixe
o
globo nada
na cavidade
aquário
do crânio
o
corpo
maré salgada
água de dentro
da limpeza
do peixe
em
arrebentações
olhos se rebelam
ondas encapeladas
rio
salg(r)ados
torrentes
de soro e sono
artífice
o poeta
como o oleiro
é um artífice
das
cinzas
do tempo
faz
o barro
para seu ofício
amalgamando
as palavras
letra por letra
retirando pedras e impurezas
moldar
até dar a forma
que acha perfeita
depois
as abandona
ao fogo lento
do esquecimento
deixa
secar
em fundo de gavetas
aos
poemas/vasos
que sobreviverem
dará nome e novo alento
mas
quem lhes verão a arte
serão outros
Mississipi
ainda vejo o sangue (ou não)
em minhas mãos
lavei na água limpa
sobre o reflexo da lua
(vi na sombra o lobo)
ou era dia e não me lembro?
Bourbon
do Mississipi
ouro dentro do vidro
luminescência e torpor
águas
que correm silentes
pesado jugo (escuro)
(navios e almas carregas)
nuvens
negras recobrem
poças de água
convidam à dança
asas
quebradas
anjos lamentam nas torres
não o fim do vôo
mas nossa amarga sorte
hoje
lágrimas de ouro
tornarão mais suave
Traducción
al español: Leonor Domene Pedrão
|