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O
repartido na tempestade define nossa nudez diante do sol.
O que terá sido de Lozna contra os dias de sua inquietude?
Um beijo é uma maré de desejos, estrela arrancada
ao enigma
da intimidade com a rocha dos sonhos. Mãe dos delírios,
uma mulher é a possessão implacável do
desamparo e do furor
do ser. Ninguém soube decifrá-la. A poesia é
nosso estro possível.
O mundo começou a morrer quando não mais tocava
as pernas
da mulher a sabedoria. Chorarás a pântanos, disse
o tempo
ao homem restado sem seu revés. O mundo sem a presença
da mulher é a conhecida parábola de uma cidade
em sua plena
destruição. Os espelhos da frivolidade são
a virtude de tal cidade.
Não há drama. Os prazeres ilusórios são
a corrente de chagas,
os prazeres meus, os teus. Lozna é a atriz buscada
pelas cinzas
de todo um império. E então, amor, que drama?
Suas irmãs
velozes devoradas por fantasmas? O fulgor do sangue
em suas carnes tão jovens e a tempestade confluente
das ruas?
Algo mais que os dentes do horror. Seus corpos famintos
comeram a morte, meninas de orgasmos sem fim, pétalas
de Deus
e seus beijos sempre fora do mundo. A dor de Lozna
é uma aventura convertida em cadáver. Reflexos?
Já não há
esquecimento na dentada de sua alma. Os espelhos são
a fortuna
dos regozijos. Os deuses encomendam estrelas ao declínio
de um corpo. Sem tua chama, meu amor, o mundo não terá
sua forma:
não pode a noite com tanto abismo. Tudo quanto existe
toquei,
meu sangue é sua ausência. Que haverá
sido de seu enigma terrestre?
Não há clausura. Nada de lágrimas. Os
mortos conhecem a graça
da paixão recíproca. A morte permite respirar
a gosto. O que mais
te rompera por dentro, poesia, rocha do frescor de minha imensidade,
pernas da vertigem? Lozna é uma parte de nós
cheia de sombras
e sua corrente mutante, gema do ar, desnuda sempre, sempre.
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Como
passa o tempo! Andei pela noite prodigiosa dos artifícios,
pela outra metade da alma, os cantos cômicos da opressão.
A poesia é uma caravana cuja beleza é terrível
e a agonia é uma jóia calcinada. Há lugar
para o desafortunado de Gerárd de Nerval e o martelo
de Carl Sandburg. Há uns fantasmas que enchem nosso
mundo de felicidade e outros que fecham a porta aos nossos
projetos futuros.
É
um mistério o que faz com que certos poetas trafeguem
sua visão de um tempo a outro.
Malcolm
Lowry disse que o êxito é um desastre. Por sua
vez, pensa Edward Dorn que somente o abandonado possui vida
feita de noite eterna, insuperável. A poesia é
uma catástrofe compartilhada? É hora de aceitarmos
que poderíamos ser outra coisa.
A
ruína irreprimível faz do homem um aventureiro
da parvoíce, um pária na terra da alegoria.
Lembras,
poeta, como nos livrávamos sempre de nossas sombras?
Uma manhã em Delfos, uma noite no corpo invisível
do prosaísmo, os perigos da escrita, a morte não
é a palavra, etc. Nos desviamos? Não creio.
De
alguma maneira a aposta da poesia é a felicidade.
Uma
das rubaiatas pede que jamais renunciemos às canções
de amor. Escreve Horácio, em uma de suas odes: aceita
com paciência o que venha. A resignação
à morte é um tipo de alimento sagrado da poesia,
um tipo de glorificação do horror.
Acaso
não há uma retórica dos sobreviventes?
Há
um poema de Günter Kunert que adverte que o poeta morto
finalmente alcançou tudo e que já nada lhe alcança.
Não posso com o amor em sua lousa sepulcral. Não
sei o que faço fora da doçura do mundo. A vida
é um resplendor. A poesia, o amor, a liberdade? - umas
variedades particulares desse mesmo resplendor. Não
se trata do ímpeto das estações. Quiseram
os poetas ler na tumba de Lozna que graças à
poesia ela não cairá em esquecimento. Que fragmentos
nossos é o túmulo de cada um que se vai, dos
queridos deixados nas cordas do tempo?
Uma
vez mais, nos desviamos?
A
poesia é uma escritura de desventuras, um tipo de alarde
que volta a palavra contra quem a escreve. É uma árvore
que só regressa graças à queda de suas
folhas preciosas. Não posso com o cadáver de
minha amada nas visões da poesia. Fecho meus olhos
e a agonia volta a ser livre. Não há rumores
de crônicas, falas comuns, falsos testemunhos, teatro
de sombras. Para regressar às estranhas propriedades
da vida não é possível repetir o mesmo
jogo de alucinações de seus dias.
A
poesia é uma forma possível da vida ou da morte?
Meu
amor caiu em meus braços e não me disse adeus.
Seu silêncio é finalmente um resplendor, o verdadeiro
enigma de toda uma vida? Acaso seu doloroso desaparecimento
é a fonte de algum mistério asteca a que todos
regressaremos? Não há suavidade no padecer.
Lembras,
poeta?
Voar
ao redor da dor não limpa a alma ou transforma sua
sequidão em nova lâmpada atormentada. Falemos
do fogo e da escuridão sigilosa que haverá de
ser o método reconhecido por Lozna.
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Há
um corpo irretocável e vazio em meus braços,
um largo aposento de sombras silenciosas
e os belos papiros de tão longínqua devoção.
Sob os arcos um caminhante desenha as visões.
É
um desejo seu alimentar o amor com o coração.
Na continuidade da palavra, seus lábios
e o verbo iluminado pela sagrada escuridão.
Que outras línguas encontro na vastidão severa
de
tua ausência: Inumerável: nos parágrafos
queimantes do nada, em sua errante escritura?
Tua alma entrou em uma nova estação,
em uma geografia de abismos invisíveis
e
nas páginas nubladas de outra caligrafia.
Não é uma biografia das perdas nem oculto drama
de suas fronteiras varridas pela tempestade do mito.
Tua alma caminha sem a tradução de seus dias.
Em
seu mundo interior não pode o caminhante
retornar às suas lembranças, não há
como deixar:
Inumerável: o coração na pele dos caminhos.
Como adentrar o passo do vazio e ali respirar
o
ar de seu movimento de lodos e silêncios?
Como viver do ar da obscuridade, de seu trêmulo
enigma? Como não sofrer a falta das coisas
ou arrancar mais lembranças de cada palavra talhada?
Há
diversos rostos na ausência do amor,
uma escritura minuciosa que não perdoa a certeza.
A morte não é uma quietude de página
desfeita,
mas sim a entrada no corpo despossuído da letra,
em
uma grafia de sombras e cinzas. Abre-se
a morte do amor como lábios de vultos indeclináveis.
A linguagem é um equilíbrio de assombros. O
que passa
com a poesia é que deve o poeta conhecer, como
recorda
José Ángel Valente, a sumária lei do
círculo.
Também são demoníacos os deuses e sua
esfera de gozos.
Como adentrar em tua nova casa: Inumerável: e viver
a eterna renúncia de tua alma? Como fazer então
amor
sendo eu um homem sobre a terra e tu
uma mulher desnuda nas trilhas de uma oração?
Como sair de ti se és a impenetrável ausência?
Não tem recurso o caminhante senão aceitar os
desígnios
de
seus miseráveis tormentos. Retornar à sua dor
não pode,
nem mesmo viver sem teu amor. Como então fazer
da alma um corpo? Quer a linguagem somente cair?
A vida é uma celebração de enigmas, aziaga
estação
de
presságios, uma indiferença gozosa que ilumina
os desertos do aventureiro. Não há meditação
sem os vãos da queda, o verme de suas ruínas.
Há um corpo demasiado vazio em meus braços.
Uma
ameaça fatal do silêncio que atinge a altura
de meu ser. O caminhante é o hóspede do infortúnio.
Onde os emissários? Onde os despojos das vítimas
da linguagem? Quais as parcelas inomináveis
da
majestosa dor do caminhante em sua aventura
pelo frondoso abismo da morte de sua querida Lozna?
Não sonhei com a beleza flamejante, com uma face
de lamentos ou a interrupção das vertigens.
Uma
vez mais os belos papiros de tua devoção.
Como fazer de ti a perfeita ausência? O amor
não é triunfante, nem há oferenda possível
ante sua ruína.
Como fazer das novas formas do assombro a casa
do
peregrino? Quais as verdadeiras páginas
da invenção? Tudo é movediço no
desejo.
Não há perfeição possível
no gozo. Como fazer
um amor retornar à sua tenda na terra? Eis uma senda
de
inquietudes, abertas as portas de toda incerteza.
É teu corpo, Lozna? Tua ruína severa, o romance
que busco entre as paredes intangíveis da fatalidade?
Não há prodígio no sangue. Os vestígios
do tempo
não
podem mais com a melancolia e o sepultamento
do desejo. Não podem conter os poemas somente
os indícios das cicatrizes. Ante os rabiscos da agonia
torna a tempestade suas proporções saudáveis.
O
que é a catástrofe? A peregrinação
de Barbus
sob os arcos do sepulcro de seu amor? Devo escrever
um livro tão-somente movido pela falha plena desse
amor?
Pelo sangue anônimo da escritura? Os danos
e
sua vastidão crematória fazem da palavra
um demônio substantivo. Tudo é real em seu delírio,
em suas formas proverbiais. Estamos na mesma
ruína de adjetivos, um trâmite idêntico
de corroídos
vocábulos.
Sofrem o amor e o poema de uma mesma
falsificação de sua folhagem: por onde irá
o sangue
de sua confessa violência? Ao descerrar a cortina
açoitada pelas luzes em sua festa de suores
e
proezas verbais? Recordo uns versos escritos
ao lado de Lozna: meu coração ficará
em tuas mãos
como um poema esgotado por suas imagens.
Quem haverá de lê-los como uma peça de
riscos
de
seu tempo? Acaso não é tudo uma questão
de desvios?
Uma vez mais a oração diante da porta do ignoto.
O que se passa, meu amor, é o triunfo branco
do desconhecido, as serpentes do tinteiro,
os
nomes do inferno e as profecias esgotadas
em seus esmaltes cruéis: tudo é um regresso
de funerais. As escavações do verbo original,
a nobreza de um corpo que deu origem
a
tudo e logo perdeu-se nas sinuosidades
de seus dons. Como sair dos sacrifícios
da fecundidade? Como superaram a morte
os deuses, os espelhos, a paisagem? Uns filhos
foram
enviados aos arquivos do fogo,
os bastardos da beleza, os epônimos da glória.
A destruição do mito é o tormento da
verdade,
mensageiro divino, ante a influência sacerdotal
do
que a letra encomendara ao corpo.
Não há lenda aprazível, a eternidade
é a lei.
É inegável certa semelhança do peregrino
com os perfis das sombras a caminho
da
escura memória de uma tragédia do corpo.
Sua dor é a poderosa chama que move o mundo.
Não foram em vão as outras mortes e os versos
que reinaram no silêncio úmido das tumbas.
A
queda do amor é o sobressalto da matéria.
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