P O R T A D A                 Detalle de una fotografía de Carmelo Raydan.    
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Apuro de máscaras

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1.

Desce por toda a pele,
em vagas sangrentas,
uma exaltação de sombras.

Escavas com as unhas,
um abismo que se move
diante das imagens reveladas.

Luzes soprando nomes
de altares em retalhos,
línguas como hóstias perdidas

pululando por toda a carne,
línguas rasgadas em silêncio
como um palavrório sitiado,

assustadas ante o crime
da própria carne temê-las
cremadas dentro da fala,

pele rompida como um lacre,
assalto de sombras antes da luz,
vislumbres mortos pelo chão…

Onde quer que a pele alcance
algo de mim já esteve lá,
e desce por toda a terra enlutada.

 

 


2.

Não quis jamais sabê-lo
dentro de quantas outras.
Em mim o tinha bem quente,

não me doía além do prazer.
Que me viesse com muitas,
recebia a todas como sendo ele.

Quanto mais dentro metia-se
mas o sabia onde vertê-lo.
Não era só um crime sem regra.

Quando o matei, bem lembro:
jamais havia gozado tanto.
Devia estar com todas em mim,

o olhar delas queimando a pele.
Ele me pegava como se várias,
sendo meu homem em tantas.

E sabia que podia tê-las em mim,
descarnando-me com volúpia,
mesmo enquanto o esfaqueava.

Um homem assim não se perde.
Se nos quer a muitas, nos reunimos
a celebrar o que sempre sonhou.


3.

"Por onde cai a linguagem
um espelho se refaz."
Jamais saberemos quem o disse.

Sombras decaindo de si mesmas,
restos de enigmas embaralhados,
uma que outra lâmpada acesa.

Não buscávamos senão as graças
de um último bar aberto,
onde a noite se completasse.

E mal falava conosco a maldita…
Dá-nos em repente um corpo,
dádiva retalhada e a pique,

talvez um morto em desassossego,
pelo desenho tão cuidado
como se fosse um gesto de amor,

um regalo sem serventia alguma
para dois bêbados e uma noite,
exceto pela frase riscada

no pouco que lhe restava inteiro:
a frase que nos tornava o espelho
daquela linguagem estilhaçada.


4.

Todos os dias caem corpos assim.
As evidências são cansativas,
a morte nunca vale nada.

Já nem conto quantos deles
recolhi retalhados com esmero,
gente que esculpe o sofrimento,

cuidado tão raro de não ser nada,
de apenas livrar-se do outro,
sequer deixando a própria dor.

Ao ler a frase riscada na perna
do corpo encontrado ontem,
logo percebi que havia uma mulher:

os talhos mais pareciam de lábios,
nem havia um plano anunciado.
Aquela mulher não o queria perder.

Um dia levar alguém a matar-me,
tomei horas a pensar se o faria,
mas como ocultar o crime?

Ao mesmo tempo em que matutava,
a outra coberta de falso orgulho
retalhara o amor que mal lhe cabia.


5.

Todo crime está exposto à vaidade.
Um mínimo gesto que seja,
lá estamos entregues ao abuso,

a sobra do ser como um desvario.
Não importa como esteja a vítima,
o crime não está em seu detalhe.

Talvez já não passe de compulsão,
empilham-se no dorso do cotidiano.
A rigor não faríamos mais nada

senão contar cadáveres e motivos,
diante do que não se pode estranhar
quando alguém declara razão alguma.

Ah o corpo ali com o escrito na perna,
já lhe temos nome e profissão:
a ex-mulher que há muito não via…

Disseram-me que foi bem morto,
que dele cuidaram em cada suspiro,
alguém a crer que a morte valha algo.

Por mim mataria quem mata alguém,
mas assim não faria outra coisa.
Dedico-me então a entender quem mata.


6.

Difícil recuperar o morto
após uma noite de ausência
do enunciado do crime.

Melhor não deixá-lo a sós,
a ruminar seus motivos,
quem sabe ocultando pistas.

Há mortos que não se querem
lembrados ou explicados.
Corpos cúmplices da morte,

aos poucos se acumulam
como um legado da dúvida,
o que leva o ser a deixar-se.

E mortos assim escondem
detalhes preciosos da vida.
Chegam a se passar por outros.

A quem deles cuida cabe
não tirar o olho um momento,
pois se disfarçam em tudo.

Já vi mortos se unindo
em uma sucessão de crimes
quando não passava de um só.


7.

Em nada meu morto parece
com outros homens que tive
bem posto dentro de mim.

Talvez matá-lo seja um abuso.
Naquele apuro de máscaras,
sempre a confundir-me,

não separo o morto do vivo.
Ponho-me em seu lugar
a conhecer por onde andou.

O corpo cercado por curiosos
em muitos casos citado,
porém o morto em outra parte.

Ainda me excita esse homem
como um espelho a refazer-se.
Eu o mataria mil vezes.

Talvez o que falte à vida
seja o desejo de tê-la,
dela fazendo parte a morte.

Ouço-lhe o chamamento:
meu morto me quer assim,
a matá-lo sempre.

   
             
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