12
junio 2002

 

Claudia
 Clemente

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12
junio 2002

Claudia
Clemente


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Noite de hotel

 

Desta vez já estávamos à espera há semanas. Tanto eu como as minhas irmãs somos pacientes e sabemos esperar. O tempo tem para nós pouco ou nenhum significado. Vimo-los entrar sem surpresa ou sobressalto. A porta rangeu, olhamos —como de costume, sem ser vistas— para os dois estrangeiros que pousavam as malas no quarto.

Eu achei que faziam um bonito casal. Nem todas as irmãs concordaram. Ele, alto e loiro, de cabelo comprido e corpo atlético, foi unanimemente considerado atraente. Mas de ti nem todas gostaram à primeira vista. Umas diziam que eras baixa, que parecias apagada ao lado dele, outras que o cabelo curto, sei lá. Tretas, ciúmes tontos.

O quarto era decrépito. As tábuas de madeira do chão estavam podres e esburacadas, as paredes com a pintura deslavada, e o tecto coberto por enormes manchas de humidade. Os vidros das janelas tão sujos que não deixavam ver para o exterior. Ainda bem, porque a vista das traseiras do hotel não é de todo das mais românticas.

Vimos o vosso olhar horrorizado com a sujidade e o abandono do quarto. Mas não havia outra opção. Vocês sabiam-no e nós também. Era o único hotel aberto àquela hora na cidade. Nunca ninguém vem aqui parar por vontade própria, mas quando o autocarro chega a meio da noite, é um alívio ver a luz acesa ao fundo da rua, e todos acabam por vir cá ter, mais cedo ou mais tarde. Quando pousam as malas já não têm coragem de voltar lá para fora, para a noite. Dominam o medo, a repulsa, e tentam animar-se pensando que depois de um bom duche tudo parecerá menos sórdido. Ilusão. Não parece.

Vimo-los tentar extrair água das torneiras, e a vossa cara quando o líquido castanho e ferrugento pingou brevemente contra o esmalte descascado da banheira. Do outro lado do espelho observei a cara dele, e quando se aproximou mais senti o calor do seu hálito, quase lhe pude tocar nos lábios. Fechou os olhos e suspirou, como se me tivesse pressentido. Teve um arrepio e afastou-se bruscamente do espelho.

Quando se despiu ficamos todas em silêncio, gulosas no meio da nossa escuridão. Vimos como te sentavas na cama, como apalpavas desconfiada o colchão. Esperámos que ele adormecesse. Demoraste a apagar a luz, olhavas à tua volta como se pressentisses alguma coisa, e cheguei a pensar que talvez tu... mas com um suspiro deitaste-te, por fim. Ouvimos a respiração pausada dele, e a tua assustada, quase ofegante. Era normal.

Passámos ao de leve por cima dele, tocando-lhe primeiro os olhos, a boca, o cabelo, depois os ombros, o peito, o ventre. Era tão bonito que nos dava quase pena. Depois chegámos a ti. Ele nem acordou. Nunca acordam antes do tempo, felizmente. Depois é terrível. Quando despertam olham à volta, buscam desorientados, chamam. Não obtêm resposta, claro. Assustam-se. Levantam-se, procuram, desesperam-se. Às vezes choram. É incrível o que gritam quando compreendem por fim que lhes levamos a mulher.

 

Claudia Clemente

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