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Noite
de hotel
Desta
vez já estávamos à espera há semanas.
Tanto eu como as minhas irmãs somos pacientes e sabemos esperar.
O tempo tem para nós pouco ou nenhum significado. Vimo-los
entrar sem surpresa ou sobressalto. A porta rangeu, olhamos como
de costume, sem ser vistas para os dois estrangeiros que pousavam
as malas no quarto.
Eu achei que faziam um bonito casal. Nem todas as irmãs concordaram.
Ele, alto e loiro, de cabelo comprido e corpo atlético, foi
unanimemente considerado atraente. Mas de ti nem todas gostaram
à primeira vista. Umas diziam que eras baixa, que parecias
apagada ao lado dele, outras que o cabelo curto, sei lá.
Tretas, ciúmes tontos.
O quarto era decrépito. As tábuas de madeira do chão
estavam podres e esburacadas, as paredes com a pintura deslavada,
e o tecto coberto por enormes manchas de humidade. Os vidros das
janelas tão sujos que não deixavam ver para o exterior.
Ainda bem, porque a vista das traseiras do hotel não é
de todo das mais românticas.
Vimos
o vosso olhar horrorizado com a sujidade e o abandono do quarto.
Mas não havia outra opção. Vocês sabiam-no
e nós também. Era o único hotel aberto àquela
hora na cidade. Nunca ninguém vem aqui parar por vontade
própria, mas quando o autocarro chega a meio da noite, é
um alívio ver a luz acesa ao fundo da rua, e todos acabam
por vir cá ter, mais cedo ou mais tarde. Quando pousam as
malas já não têm coragem de voltar lá
para fora, para a noite. Dominam o medo, a repulsa, e tentam animar-se
pensando que depois de um bom duche tudo parecerá menos sórdido.
Ilusão. Não parece.
Vimo-los
tentar extrair água das torneiras, e a vossa cara quando
o líquido castanho e ferrugento pingou brevemente contra
o esmalte descascado da banheira. Do outro lado do espelho observei
a cara dele, e quando se aproximou mais senti o calor do seu hálito,
quase lhe pude tocar nos lábios. Fechou os olhos e suspirou,
como se me tivesse pressentido. Teve um arrepio e afastou-se bruscamente
do espelho.
Quando se despiu ficamos todas em silêncio, gulosas no meio
da nossa escuridão. Vimos como te sentavas na cama, como
apalpavas desconfiada o colchão. Esperámos que ele
adormecesse. Demoraste a apagar a luz, olhavas à tua volta
como se pressentisses alguma coisa, e cheguei a pensar que talvez
tu... mas com um suspiro deitaste-te, por fim. Ouvimos a respiração
pausada dele, e a tua assustada, quase ofegante. Era normal.
Passámos
ao de leve por cima dele, tocando-lhe primeiro os olhos, a boca,
o cabelo, depois os ombros, o peito, o ventre. Era tão bonito
que nos dava quase pena. Depois chegámos a ti. Ele nem acordou.
Nunca acordam antes do tempo, felizmente. Depois é terrível.
Quando despertam olham à volta, buscam desorientados, chamam.
Não obtêm resposta, claro. Assustam-se. Levantam-se,
procuram, desesperam-se. Às vezes choram. É incrível
o que gritam quando compreendem por fim que lhes levamos a mulher.
©
Claudia
Clemente
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