8
febrero 2002

Helena
 
de Sousa
 
 Freitas

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VIDA

E MORTE


DE UM RESISTENTE

 

O velho Lino sentou-se à secretária e leu. Releu e riscou. Escreveu e tornou a riscar, até a madrugada ir avançada, sentado na secretária de pinho velho e carunchoso. Tinha de entregar os textos para a 'Voz Sindical' no dia seguinte, na casa de um camarada na clandestinidade. Um dos artigos era acerca de queixas de moradores e o outro sobre despedimentos numa conserveira. Não eram artigos como os de outros jornais, que se podiam ler na rua à luz do dia. Mas eram, e isso inspirava-o, artigos a salvo do lápis azul dos censores.

Ainda não tinha relido pela última vez as peças para o boletim quando duas pancadas secas se fizeram ouvir na porta de entrada, trancada com um ferrolho. A filha, que costurava para fora roupa de um enxoval, foi cautelosamente ver quem era, com o estômago a desfazer-se de nervos... e voltou com a voz tensa:

- Meu pai, são eles outra vez.

Lino caminhou até à porta, sem dar mostras nem de pressa nem de lentidão forçada, nem de ansiedade ou medo. Abriu o postigo da janela por onde entrou uma rajada fria da madrugada e ouviu:

- Senhor Lino, faça o favor de nos acompanhar.

Vestiu um casaco, despediu-se da filha e olhou para a neta que dormia, antes de sair a porta sem resistência, acompanhado dos dois homens vestidos de negro, com chapéus e óculos escuros.

Na manhã seguinte, a filha deixou a menina com uma vizinha e dirigiu-se à Investigação, para onde o pai fora levado. Ia entregar-lhe uma manta axadrezada, para que tivesse as noites mais quentes. Mas a manta só era útil enquanto não o transferiam para Caxias, onde deixava de ser necessária porque não havia noite para dormir. Havia apenas uma sucessão de horas intermináveis debaixo de socos e pontapés, de queimaduras de cigarro e de roupa arrancada aos sacões. Durante meses a filha não conseguia saber nada do pai, nem se ainda estava em Caxias ou sequer se era vivo. Outras vezes deixavam-na visitá-lo. Tudo variava com a disposição dos agentes.

Quando voltava para casa, o velho Lino nada contava. O que se sabia era pelos outros, que haviam tido a mesma má fortuna de conhecer as celas do Aljube, de Caxias ou até de Peniche, alguma delas com uns humilhantes dois por dois metros. Os presos políticos ficavam ali durante dias, com tempo e sem ter nada para fazer, com as horas a arrastarem-se e sem ter para onde olhar, com as mãos vagas e sem um livro, um lápis ou uma folha de papel. Esta tortura pode não parecer muito rigorosa, mas quando se está preso só o tempo está demasiado livre. E ali a luta era entre o mínimo de humanidade e o máximo de resistência.

Depois do regresso, Lino já conhecia a peregrinação que o aguardava: tentar voltar a conseguir emprego, coisa que ninguém, nem os melhores amigos, queriam dar a um comunista. A PIDE tinha olho vivo e informadores a cada esquina e todos sabiam o quanto era arriscado e passível de comparações: 'Com quem te vejo...'

Geralmente só conseguia alguma coisa nos serviços municipalizados, nos trabalhos mais duros e mal pagos que todos recusavam mas que eram necessários à cidade. Por isso, era vê-lo a calcetar o chão com o sol a torrar-lhe as costas em Agosto, ou a varrer as ruas, vestido com dois casacos, debaixo de chuva e frio nos piores dias do Inverno.

À noite, com os músculos derreados e o espírito inflamado voltava para os escritos e sintonizava na velha telefonia a Rádio Portugal Livre, que transmitia da Argélia, onde fora criada por portugueses fugidos ao Regime e à Guerra Colonial. Quando vinha de ânimos mais exaltados, pedia o gramofone emprestado a um vizinho e ouvia a 'Internacional' ou o 'Hino da Batalha' sob o terror da filha, sempre com um credo nos lábios:

- Meu pai, olhe que isso se ouve na rua! Ponha mais baixo.

- Estou na minha casa, faço o que eu quero! - como se as dores da tortura não fossem de há uma semana, mas de há tantos anos que já as esquecera.

O velho Lino, a filha e a neta, de 12 anos, constituíam toda a família... mas as mulheres da casa nunca haveriam de ser activistas políticas. E no entanto, existiam mulheres assim, como no Couço, perto de Coruche, onde a sua força era tal que lhes valeu serem das primeiras a sofrer os interrogatórios da PIDE.

Inúmeras vezes Lino voltou à Investigação e às prisões da polícia estatal. Nos últimos anos, as suas pernas já não agüentavam as torturas da 'estátua' - que obrigavam a pessoa a ficar de pé durante dias - e as varizes rebentavam-lhe sob a pressão, soltando caudais de sangue escuro e deixando feridas nas pernas que levavam meses a cicatrizar.

Mas lá por isso nunca desistiu de encadernar jornais e panfletos clandestinos e de os esconder num teto falso que fizera na capoeira das galinhas, num canto do quintal, já a contar com o dia em que a PIDE ia irromper portas adentro para revistar a casa. Também insistia nas reuniões de camaradas, que entravam a porta carregados de instrumentos, como quem vai ensaiar partituras para tocar em bailes e casamentos.

Porém, junto com as violas, banjos e concertinas vinham papéis sobre reivindicações do operariado, greves contra os salários irrisórios e protestos de moradores em cujas casas entrava a 'cheia' de cada vez que chovia.

Mas os músicos tocavam a sério - era forçoso manter as aparências.

A manhã já ia alta e Lino ainda não se levantara, apesar de ter dito à filha, na véspera, que ia acordar às seis horas. Eram quase dez e o silêncio absoluto deixava ouvir uma chuva miudinha, insistente de encontro à vidraça.

Filha e neta dirigiram-se ao quarto, bateram, tornaram a bater... e rodaram a maçaneta devagar. Lino jazia na cama, hirto, com as mãos crispadas e o mesmo ar feroz e altivo que durante anos o governara.

As duas mulheres entreolharam-se, comovidas pela força inexplicável que habitara um corpo tão frágil e gratas pelo justo descanso daquele que fora, sem dúvida, um grande Homem. Um Homem que lutara, pela liberdade, uma luta que ajudou à sua morte.

Mas também um Homem que conseguira resistir durante mais de vinte anos e, por fim, vir morrer a casa, longe das mãos dos agentes e guardas prisionais. E isto era algo que, naquela altura, já podia ser considerado uma grande vitória.

 

Helena de Sousa Freitas

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