São duas dúzias de casebres encolhidos, que a
cidade arrumou num só canto e onde o Sol se descobre
com dificuldade por entre a estreiteza das ruas. Entrar nelas
é como mudar para uma nova terra, longe dos ruídos
do trânsito, da vida apressada das gentes e desta dormência
psicológica que nos invade enquanto percorremos os caminhos
do quotidiano: casa, escola, trabalho, supermercado, trabalho,
casa. e pouco mais.
Este espaço, quase minúsculo, sobreviveu à
passagem dos anos, à frieza dos tempos correntes e à
monotonia humana, refugiando-se em si próprio. Nele,
como em tantos locais do litoral, ainda é possível
observar as mulheres, de carrapito e avental, fazendo a barrela
da semana na soleira da porta. São as toalhas de mesa
e de banho, a água gelada com sabão ou detergente
e os alguidares azuis, que também eu, morando hoje noutro
extremo da cidade, conheço de ver nas mãos da
minha avó durante os tempos de infância.
Aguardam
os maridos. Estas mulheres de carrapito e avental desbotado
esperam que os seus homens cheguem do mar para que todos se
sentem à mesa em hora igual, como mandam as leis do Senhor.
Não conhecem outra vida, nem outra obediência senão
a Deus, no vasto reino do Céu, e aos Maridos, no pequeno
bairro que ocupam na Terra.
Mas
entre si não há domínios mas antes «absoluta
igualdade», como fazem questão de sublinhar - todas
se assemelham no uso da maledicência para com a «feia
conduta alheia» ou na troca de simples comentários
acerca «deles», do «jantar de amanhã»,
da «novela das sete» ou da casa da vizinha «onde
entrou uma vez mais a "cheia" porque o Presidente
da Câmara só tem olhos e verbas para os grandes
e não sabe ver isto!»
E
se o dia não foi proveitoso no mar, «porque o tempo
anda alvoroçado e já não respeita os Santos
nem as leis da Natureza», há discussão pela
certa à hora da ceia, porque "casa onde não
há pão todos ralham e ninguém tem razão".
Após o desembarque, remoem eles, sentados à porta
de casa com o palito entre os dentes e o olhar desiludido, e
choram elas, na cozinha por entre o descascar das batatas. Só
se deseja que o João e a Sofia continuem a brincar com
os cães lá fora, coçando-lhes a sarna e
cobrindo-os com aquela ternura especial que apenas cabe nas
mãos das crianças; apenas se quer que se mantenham
entretidos e não entrem agora para não se depararem
com a tristeza da cena.
Na verdade, a pobreza sempre residiu ali... mas há dias
piores de agüentar, dias em que toda a fé se vê
destruída, em que a capacidade de acreditar é
tragada pelas sombras e superada pela força do hábito,
e em que palavras como "capaz", "poder"
e "fazer" são conceitos cuja definição
mora em parte incerta.
E
apesar de tudo, mantêm-se pessoas pacientes e ternas,
em parte por natureza mas muito por resignação.
São exemplos daquele português, cada vez mais raro,
que não suporta a crueldade, que é melhor a acatar
ordens do que a mandar e que julga o Mundo inteiro pela medida
da sua própria fraternidade.
Elas
em particular, ora matronas e acolhedoras, ora franzinas e resistentes
- mas forçosamente mais baixas que os maridos por uma
questão de "bem parecer" - seguem diariamente
os rituais que sempre conheceram, e que viram pôr em prática
a mãe ou a avó. Quando o tempo se mostra de Estio,
aguardam serenas pela noite: de mansinho os seus homens chegam
com um ardor de desejo que a experiência as ensinou a
saber acalmar.
São
os tempos melhores, em que elas acordam cantarolando versos
da juventude, com um brilho de renovação no olhar.
Espreitam à janela e abençoam o bom tempo e as
espreitadelas do Sol, pois, «enquanto a lua não
mudar, o Zé pode sair para o mar e eu escuso de o ir
buscar à tasca do Chico com uma carraspana de cair por
terra».
«Também
as paredes precisam de ser caiadas, que as vozes da vizinhança
já acusam o desleixo e ninguém necessita de tais
murmúrios... e a roupa de ser posta à enxuga.
Até para ver se a casa deixa, de uma vez por todas, de
acumular bolor pelos cantos, pois os quartos ficam empestados
de um cheiro a bafio tão intenso que ninguém lá
consegue dormir ou respirar», nem mesmo quando o ar entra
às golfadas de permeio com os soluços, os gemidos
ou os silvos estridentes do comboio.
O
seu Zé tivera de partir logo de madrugada para a pesca,
para aproveitar o clima bonançoso e tentar abastecer
o frigorífico enquanto a sorte dura. «Mas ia radioso,
ora se ia, transbordando um vigor de vinte anos, de quando pescava
com o pai naquela casca de noz, que uma tempestade devorara
havia muito tempo». E agora, estaria ele a recolher as
redes, sem o ar carrancudo que ultimamente se lhe notava.
«Bendito
o meu ventre quente e palpitante, a minha têmpera bem-humorada
e folgazã e a mão para a cozinha...» - murmurava
para consigo, sem lhe interessar esconder um traço de
malícia, enquanto passava em revista a soma das qualidades
com que conquistara o marido.
São
estes os pensamentos que lhe ocupam a mente enquanto compõe
o quarto. E, olhando a luz do Sol que beija os casebres com
orgulho, vai descendo o mosquiteiro sobre a cama com um suspiro
de satisfação: «Que hei-de eu fazer hoje
para o almoço?..»