8
febrero 2002

Helena
 
de Sousa
 
 Freitas

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E DE SOL

DE AMOR

 

São duas dúzias de casebres encolhidos, que a cidade arrumou num só canto e onde o Sol se descobre com dificuldade por entre a estreiteza das ruas. Entrar nelas é como mudar para uma nova terra, longe dos ruídos do trânsito, da vida apressada das gentes e desta dormência psicológica que nos invade enquanto percorremos os caminhos do quotidiano: casa, escola, trabalho, supermercado, trabalho, casa. e pouco mais.

Este espaço, quase minúsculo, sobreviveu à passagem dos anos, à frieza dos tempos correntes e à monotonia humana, refugiando-se em si próprio. Nele, como em tantos locais do litoral, ainda é possível observar as mulheres, de carrapito e avental, fazendo a barrela da semana na soleira da porta. São as toalhas de mesa e de banho, a água gelada com sabão ou detergente e os alguidares azuis, que também eu, morando hoje noutro extremo da cidade, conheço de ver nas mãos da minha avó durante os tempos de infância.

Aguardam os maridos. Estas mulheres de carrapito e avental desbotado esperam que os seus homens cheguem do mar para que todos se sentem à mesa em hora igual, como mandam as leis do Senhor. Não conhecem outra vida, nem outra obediência senão a Deus, no vasto reino do Céu, e aos Maridos, no pequeno bairro que ocupam na Terra.

Mas entre si não há domínios mas antes «absoluta igualdade», como fazem questão de sublinhar - todas se assemelham no uso da maledicência para com a «feia conduta alheia» ou na troca de simples comentários acerca «deles», do «jantar de amanhã», da «novela das sete» ou da casa da vizinha «onde entrou uma vez mais a "cheia" porque o Presidente da Câmara só tem olhos e verbas para os grandes e não sabe ver isto!»

E se o dia não foi proveitoso no mar, «porque o tempo anda alvoroçado e já não respeita os Santos nem as leis da Natureza», há discussão pela certa à hora da ceia, porque "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". Após o desembarque, remoem eles, sentados à porta de casa com o palito entre os dentes e o olhar desiludido, e choram elas, na cozinha por entre o descascar das batatas. Só se deseja que o João e a Sofia continuem a brincar com os cães lá fora, coçando-lhes a sarna e cobrindo-os com aquela ternura especial que apenas cabe nas mãos das crianças; apenas se quer que se mantenham entretidos e não entrem agora para não se depararem com a tristeza da cena.

Na verdade, a pobreza sempre residiu ali... mas há dias piores de agüentar, dias em que toda a fé se vê destruída, em que a capacidade de acreditar é tragada pelas sombras e superada pela força do hábito, e em que palavras como "capaz", "poder" e "fazer" são conceitos cuja definição mora em parte incerta.

E apesar de tudo, mantêm-se pessoas pacientes e ternas, em parte por natureza mas muito por resignação. São exemplos daquele português, cada vez mais raro, que não suporta a crueldade, que é melhor a acatar ordens do que a mandar e que julga o Mundo inteiro pela medida da sua própria fraternidade.

Elas em particular, ora matronas e acolhedoras, ora franzinas e resistentes - mas forçosamente mais baixas que os maridos por uma questão de "bem parecer" - seguem diariamente os rituais que sempre conheceram, e que viram pôr em prática a mãe ou a avó. Quando o tempo se mostra de Estio, aguardam serenas pela noite: de mansinho os seus homens chegam com um ardor de desejo que a experiência as ensinou a saber acalmar.

São os tempos melhores, em que elas acordam cantarolando versos da juventude, com um brilho de renovação no olhar. Espreitam à janela e abençoam o bom tempo e as espreitadelas do Sol, pois, «enquanto a lua não mudar, o Zé pode sair para o mar e eu escuso de o ir buscar à tasca do Chico com uma carraspana de cair por terra».

«Também as paredes precisam de ser caiadas, que as vozes da vizinhança já acusam o desleixo e ninguém necessita de tais murmúrios... e a roupa de ser posta à enxuga. Até para ver se a casa deixa, de uma vez por todas, de acumular bolor pelos cantos, pois os quartos ficam empestados de um cheiro a bafio tão intenso que ninguém lá consegue dormir ou respirar», nem mesmo quando o ar entra às golfadas de permeio com os soluços, os gemidos ou os silvos estridentes do comboio.

O seu Zé tivera de partir logo de madrugada para a pesca, para aproveitar o clima bonançoso e tentar abastecer o frigorífico enquanto a sorte dura. «Mas ia radioso, ora se ia, transbordando um vigor de vinte anos, de quando pescava com o pai naquela casca de noz, que uma tempestade devorara havia muito tempo». E agora, estaria ele a recolher as redes, sem o ar carrancudo que ultimamente se lhe notava.

«Bendito o meu ventre quente e palpitante, a minha têmpera bem-humorada e folgazã e a mão para a cozinha...» - murmurava para consigo, sem lhe interessar esconder um traço de malícia, enquanto passava em revista a soma das qualidades com que conquistara o marido.

São estes os pensamentos que lhe ocupam a mente enquanto compõe o quarto. E, olhando a luz do Sol que beija os casebres com orgulho, vai descendo o mosquiteiro sobre a cama com um suspiro de satisfação: «Que hei-de eu fazer hoje para o almoço?..»

 

Helena de Sousa Freitas

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