8
febrero 2002

Helena
 
de Sousa
 
 Freitas

Datos en el
índice de autores

eom
volver a Tierra

 



DUAS PINCELADAS

NUM QUARTO DE TELA

 

Finalmente descobrira um local onde o tempo se prolongava esquecido, sem maiores pressas, pela tarde dentro. Eram poucos os visitantes da galeria naquela tarde acinzentada de Outubro em que, lá fora, se arrastavam já as primeiras folhas caídas sobre os ímpetos uivantes da ventania, que fazia mover os raios de luz e desviava até a rota original das aves.

No entanto, ali dentro, mesmo protegida dos desalvoros do vento e da infinita melancolia do céu, continuava com uma disposição solitária, adequada à fria palidez e ao silêncio monacal dos corredores, apenas coloridos e quentes nas diversas manifestações de arte que ao longo deles marcavam presença.

Devagar ia olhando todos os quadros, com uma expressão vaga que os menos atentos poderiam facilmente confundir com desinteresse. Subitamente estacou, incapaz de um próximo passo, com o olhar fixo e penetrante numa tela que, estando segura de nunca ter visto antes, juraria conhecer desde a nascença. Sentiu-se de imediato vencida pelo magnetismo impreciso da obra e deixou-se conduzir aos seus pormenores mais velados, em sagrados momentos onde a celebração da vida se lhe revelou, transmitindo-lhe uma imensa sabedoria.

Entra. Senta-se quase invisível, possuidora da figura evanescente dos espíritos, mas, como não tem a certeza dessa imaterialidade, esforça-se para que o soalho não lhe estale debaixo dos pés.

O quarto é mediano e simples, quase pobre. Tem por única mobília uma antiga cama de pinho e uma mesa de cabeceira vencida pela idade, sobre a qual descansa um candeeiro a petróleo, de vidro embaciado e chama vacilante. Frente à cama os vidros de uma pequena janela, cujos caixilhos denunciam a passagem dos anos, evidenciam contornos do exterior. Adivinha-se através deles a quietude bravia do lugar, o cheiro ácido da terra e a própria dormência da Natureza.

A luminosidade dentro do quarto é a suficiente, realçando-se o brilho da chama à medida que se aprofunda o entardecer. Tem-se uma imediata sensação do peso do ambiente, pois a sensualidade ali contida não parece soltar-se apenas dos dois corpos saciados que repousam na desordem dos lençóis. A sensualidade está presente sob todas as formas possíveis, desprendendo-se do mobiliário, da tinta das paredes e do negrume do tecto.

A noite, feiticeira, traz vida àquela imagem e impregna o ar com invulgares cintilações de poesia que ajudam a desanuviar a tensão ambiente. Afinal, não estão adormecidos: tocam-se, desencadeando os primeiros movimentos do ritual amoroso. As mãos, deslizando, vão quebrar-se como ondas no seio sereno e os lábios, queimando, decoram a fina textura da pele.

Ao mesmo ritmo, com a mesma cadência, os corpos desprendem-se da penumbra: já não são meros vultos escuros de perfil indistinto como sombras chinesas recortadas na parede à contraluz. São dois corpos seguros e ardentes, que se elevam do leito mantendo-se flutuantes a escassos centímetros da colcha de linho amarrotada que desce pela cama até roçar no chão. Parecem quase desmaterializar-se, perder a forma, dissolvidos numa poalha de reflexos.

Deslizam na fluidez do espaço e na lentidão do tempo, que são ali autênticos, que se deleitam até ao êxtase, imitando o prazer dos dois seres que estão incumbidos de velar. Dois seres que vivem intensamente o prodígio de se descobrirem um no outro, de se envolverem uma vez mais em mútuo conhecimento, sempre deslumbrados pelo repetir da revelação. Se têm pensamentos nesse instante, estes são por certo incapazes de caber no tempo e no entendimento da civilização. Nota-se em ambos uma espécie de ligação livre de atalhos e fronteiras interiores entre o corpo e a mente. Um é, em permanência, o guardião do outro e, mesmo a dormir, vigiam-se mutuamente através de sonhos.

Encontraram um desses raros amores, construído com demora, que parece já ter resistido a distâncias e guerras e vencido monotonias e desilusões. Partilham-se numa relação superior, desenvolvida e dominada por silêncios e intuições e, permanecendo unidos do mesmo lado da sensibilidade, consumam o seu amor longamente, como uma chama que pode durar até um tempo que a Humanidade não conhece.

Aprenderam a amar-se serenamente, cada um a tocar a pele do outro, descobrindo os seus segredos e o desejo de cada fibra. Muitas vezes conseguem mesmo situar-se longe da realidade, que as horas suspensas naquele local ajudam a apagar ou que a imaginação ilude.

Tinham deste modo alcançado uma plenitude que permitia a qualquer um dos dois a libertação através dos gestos do outro, ambos se lendo e se despindo na delicadeza de um olhar.

- Encontram-se momentos sagrados quando entramos num mundo de conhecimentos de tom tão secreto - pensa com assombro, ali estagnada no calor, enquanto percepciona tudo com nitidez e embaraço, numa quase transparência. Por instantes, a sua própria sensibilidade impressionada esquece que a fusão total e perfeita de duas pessoas mais não é do que uma utopia romântica. E, no entanto, não lhe é possível saber algo de mais simples, de menos profundo: a simplicidade, o óbvio, parecem estranhamente não corresponder às partes tangíveis daquele amor. Só ao complexo lhe é cedido o acesso.

Não sabe se os dois seres estão naquele quarto pela primeira vez ou encarcerados pelos anos. Desconhece qual a razão por que não se escuta ali um só som: nem dos estalidos secos da madeira da cama, nem do suave toque dos lençóis, nem da voz sussurrante dos amantes. Dir-se-ia que os sons ali não se propagam, que a cena decorre num vácuo ou para lá das vulgares barreiras espácio-temporais.

Acalmia. Agora encontram-se já em sossego, cada um enfrentando a sua momentânea solidão. Estão invadidos por uma paz de recém-nascido, e possuem um brilho raro na nudez semeada por gotículas de transpiração. Deixam-se contemplar: ele de rosto largo, bem demarcado e tronco endurecido, trabalhado com arte; ela, de cabelos agrestes, olhar de silenciosa atenção e pele dourada, com um ardor de sal. São belos, são incrivelmente belos porque são autênticos nas suas expressões imperfeitas, o que lhes imprime contornos de misteriosos animais selvagens. Por entre sorrisos trocam olhares onde a mansidão dos prados nos olhos dele suaviza a terra ardente dos dela. O aroma adocicado, intrínseco aos dois, lembra o da tinta fresca, do verniz da moldura e do tecido da tela, associado ao extravagante cheiro a luxúria dos quartos de pensão.

Quando só um dos dois amantes ali estiver, vai certamente sentir o corpo ancorado ao leito e a alma encolhida no espaço que a ausência do outro deixou vazio. Sempre que tal sucedia, ela procurava-o com desespero em cada recanto de si mesma e ele agia de igual modo, embora nunca o tivesse confessado, pois o assunto era parte integrante da sua natureza enigmática. No entanto, ela soube-o, tal como sabe toda a verdade sobre ele agora: nunca um homem é tão transparente, frágil e vulnerável como quando repousa ao nosso lado na sua completa nudez.

Inicialmente, essa falta deixava-lhes a existência sem rumo possível, mas a experiência levou-os a descobrir um mundo de invisibilidade onde podiam orientar-se como entidades transcendentes. Aprenderam a guiar-se pelo ardor impalpável do desejo, que se recusava a desimpregnar a pele atormentada e invadia a candura dos lençóis, transformando, em cada ausência, a cama numa prisão.

Só um tinha então autoridade para entrar nos sonhos do outro, despindo-se na sua noite, vindo da penumbra do quarto, das fragrâncias da distância e da dor do silêncio. Enquanto isso, sucediam-se sonhos tão intensos que por pouco não incendiavam os lençóis, transformando a cama de madeira exausta numa pira dantesca. E durante todo o dia essas lembranças permaneciam como sombras na face da memória, ameaçando persistir para vidas posteriores.

- Esta é a milésima segunda noite de encantar, aquela que Scherazade nunca chegou a criar durante a sua longa odisseia de contista virgem - pensou quase alto, numa tentativa de sobreviver ao seu próprio espanto. Na sequência destes pensamentos, uma total imobilidade regressou à cena e ela sentiu a leveza nascer-lhe nos pés, possibilitando-lhe de novo o caminhar, e a capacidade de decisão ser-lhe restituída: já podia optar por sair livremente da tela e, contudo, hesitava em fazê-lo... A energia tinha-se-lhe esvaído...

Por fim, despertou das brumas e abandonou a tela ao seu erótico perfume. Sentia os membros pesados e dormentes e a vista inadaptada à intensidade da luz.

Ainda se ficou a contemplar o quadro, demoradamente, mas não se despediu porque isso lhe era impossível. Nunca o veio a adquirir pois soube desde logo que as suas paredes, tal como as daquela galeria, não eram suficientemente amplas para a mensagem que, num envolvente e delicioso secretismo, o autor tencionava transmitir. A tela devia ser pertença exclusiva da Natureza, ou de alguma outra entidade igualmente grandiosa e indomável.

Além disso, temia demasiado que àqueles dois corpos, construídos em duas simples pinceladas rosa, ocorresse em alguma ocasião o cansaço do seu quarto encolhido na tela e se resolvessem a escapar dos limites da moldura. Então, seriam livres para lhe povoar os sonhos de arrebatamento, a perseguir na noite imensa e lhe transformar em fogo os alvos lençóis e a amarrotada colcha de linho que, nos momentos de maior desordem, pende cama abaixo até roçar no chão!

 

Helena de Sousa Freitas

inicio

volver al índice

volver a Tierra