Finalmente descobrira um local onde o tempo se prolongava esquecido,
sem maiores pressas, pela tarde dentro. Eram poucos os visitantes
da galeria naquela tarde acinzentada de Outubro em que, lá
fora, se arrastavam já as primeiras folhas caídas
sobre os ímpetos uivantes da ventania, que fazia mover
os raios de luz e desviava até a rota original das aves.
No
entanto, ali dentro, mesmo protegida dos desalvoros do vento
e da infinita melancolia do céu, continuava com uma disposição
solitária, adequada à fria palidez e ao silêncio
monacal dos corredores, apenas coloridos e quentes nas diversas
manifestações de arte que ao longo deles marcavam
presença.
Devagar
ia olhando todos os quadros, com uma expressão vaga que
os menos atentos poderiam facilmente confundir com desinteresse.
Subitamente estacou, incapaz de um próximo passo, com
o olhar fixo e penetrante numa tela que, estando segura de nunca
ter visto antes, juraria conhecer desde a nascença. Sentiu-se
de imediato vencida pelo magnetismo impreciso da obra e deixou-se
conduzir aos seus pormenores mais velados, em sagrados momentos
onde a celebração da vida se lhe revelou, transmitindo-lhe
uma imensa sabedoria.
Entra.
Senta-se quase invisível, possuidora da figura evanescente
dos espíritos, mas, como não tem a certeza dessa
imaterialidade, esforça-se para que o soalho não
lhe estale debaixo dos pés.
O
quarto é mediano e simples, quase pobre. Tem por única
mobília uma antiga cama de pinho e uma mesa de cabeceira
vencida pela idade, sobre a qual descansa um candeeiro a petróleo,
de vidro embaciado e chama vacilante. Frente à cama os
vidros de uma pequena janela, cujos caixilhos denunciam a passagem
dos anos, evidenciam contornos do exterior. Adivinha-se através
deles a quietude bravia do lugar, o cheiro ácido da terra
e a própria dormência da Natureza.
A
luminosidade dentro do quarto é a suficiente, realçando-se
o brilho da chama à medida que se aprofunda o entardecer.
Tem-se uma imediata sensação do peso do ambiente,
pois a sensualidade ali contida não parece soltar-se
apenas dos dois corpos saciados que repousam na desordem dos
lençóis. A sensualidade está presente sob
todas as formas possíveis, desprendendo-se do mobiliário,
da tinta das paredes e do negrume do tecto.
A
noite, feiticeira, traz vida àquela imagem e impregna
o ar com invulgares cintilações de poesia que
ajudam a desanuviar a tensão ambiente. Afinal, não
estão adormecidos: tocam-se, desencadeando os primeiros
movimentos do ritual amoroso. As mãos, deslizando, vão
quebrar-se como ondas no seio sereno e os lábios, queimando,
decoram a fina textura da pele.
Ao
mesmo ritmo, com a mesma cadência, os corpos desprendem-se
da penumbra: já não são meros vultos escuros
de perfil indistinto como sombras chinesas recortadas na parede
à contraluz. São dois corpos seguros e ardentes,
que se elevam do leito mantendo-se flutuantes a escassos centímetros
da colcha de linho amarrotada que desce pela cama até
roçar no chão. Parecem quase desmaterializar-se,
perder a forma, dissolvidos numa poalha de reflexos.
Deslizam
na fluidez do espaço e na lentidão do tempo, que
são ali autênticos, que se deleitam até
ao êxtase, imitando o prazer dos dois seres que estão
incumbidos de velar. Dois seres que vivem intensamente o prodígio
de se descobrirem um no outro, de se envolverem uma vez mais
em mútuo conhecimento, sempre deslumbrados pelo repetir
da revelação. Se têm pensamentos nesse instante,
estes são por certo incapazes de caber no tempo e no
entendimento da civilização. Nota-se em ambos
uma espécie de ligação livre de atalhos
e fronteiras interiores entre o corpo e a mente. Um é,
em permanência, o guardião do outro e, mesmo a
dormir, vigiam-se mutuamente através de sonhos.
Encontraram
um desses raros amores, construído com demora, que parece
já ter resistido a distâncias e guerras e vencido
monotonias e desilusões. Partilham-se numa relação
superior, desenvolvida e dominada por silêncios e intuições
e, permanecendo unidos do mesmo lado da sensibilidade, consumam
o seu amor longamente, como uma chama que pode durar até
um tempo que a Humanidade não conhece.
Aprenderam
a amar-se serenamente, cada um a tocar a pele do outro, descobrindo
os seus segredos e o desejo de cada fibra. Muitas vezes conseguem
mesmo situar-se longe da realidade, que as horas suspensas naquele
local ajudam a apagar ou que a imaginação ilude.
Tinham
deste modo alcançado uma plenitude que permitia a qualquer
um dos dois a libertação através dos gestos
do outro, ambos se lendo e se despindo na delicadeza de um olhar.
-
Encontram-se momentos sagrados quando entramos num mundo de
conhecimentos de tom tão secreto - pensa com assombro,
ali estagnada no calor, enquanto percepciona tudo com nitidez
e embaraço, numa quase transparência. Por instantes,
a sua própria sensibilidade impressionada esquece que
a fusão total e perfeita de duas pessoas mais não
é do que uma utopia romântica. E, no entanto, não
lhe é possível saber algo de mais simples, de
menos profundo: a simplicidade, o óbvio, parecem estranhamente
não corresponder às partes tangíveis daquele
amor. Só ao complexo lhe é cedido o acesso.
Não
sabe se os dois seres estão naquele quarto pela primeira
vez ou encarcerados pelos anos. Desconhece qual a razão
por que não se escuta ali um só som: nem dos estalidos
secos da madeira da cama, nem do suave toque dos lençóis,
nem da voz sussurrante dos amantes. Dir-se-ia que os sons ali
não se propagam, que a cena decorre num vácuo
ou para lá das vulgares barreiras espácio-temporais.
Acalmia.
Agora encontram-se já em sossego, cada um enfrentando
a sua momentânea solidão. Estão invadidos
por uma paz de recém-nascido, e possuem um brilho raro
na nudez semeada por gotículas de transpiração.
Deixam-se contemplar: ele de rosto largo, bem demarcado e tronco
endurecido, trabalhado com arte; ela, de cabelos agrestes, olhar
de silenciosa atenção e pele dourada, com um ardor
de sal. São belos, são incrivelmente belos porque
são autênticos nas suas expressões imperfeitas,
o que lhes imprime contornos de misteriosos animais selvagens.
Por entre sorrisos trocam olhares onde a mansidão dos
prados nos olhos dele suaviza a terra ardente dos dela. O aroma
adocicado, intrínseco aos dois, lembra o da tinta fresca,
do verniz da moldura e do tecido da tela, associado ao extravagante
cheiro a luxúria dos quartos de pensão.
Quando
só um dos dois amantes ali estiver, vai certamente sentir
o corpo ancorado ao leito e a alma encolhida no espaço
que a ausência do outro deixou vazio. Sempre que tal sucedia,
ela procurava-o com desespero em cada recanto de si mesma e
ele agia de igual modo, embora nunca o tivesse confessado, pois
o assunto era parte integrante da sua natureza enigmática.
No entanto, ela soube-o, tal como sabe toda a verdade sobre
ele agora: nunca um homem é tão transparente,
frágil e vulnerável como quando repousa ao nosso
lado na sua completa nudez.
Inicialmente,
essa falta deixava-lhes a existência sem rumo possível,
mas a experiência levou-os a descobrir um mundo de invisibilidade
onde podiam orientar-se como entidades transcendentes. Aprenderam
a guiar-se pelo ardor impalpável do desejo, que se recusava
a desimpregnar a pele atormentada e invadia a candura dos lençóis,
transformando, em cada ausência, a cama numa prisão.
Só
um tinha então autoridade para entrar nos sonhos do outro,
despindo-se na sua noite, vindo da penumbra do quarto, das fragrâncias
da distância e da dor do silêncio. Enquanto isso,
sucediam-se sonhos tão intensos que por pouco não
incendiavam os lençóis, transformando a cama de
madeira exausta numa pira dantesca. E durante todo o dia essas
lembranças permaneciam como sombras na face da memória,
ameaçando persistir para vidas posteriores.
-
Esta é a milésima segunda noite de encantar, aquela
que Scherazade nunca chegou a criar durante a sua longa odisseia
de contista virgem - pensou quase alto, numa tentativa de sobreviver
ao seu próprio espanto. Na sequência destes pensamentos,
uma total imobilidade regressou à cena e ela sentiu a
leveza nascer-lhe nos pés, possibilitando-lhe de novo
o caminhar, e a capacidade de decisão ser-lhe restituída:
já podia optar por sair livremente da tela e, contudo,
hesitava em fazê-lo... A energia tinha-se-lhe esvaído...
Por fim, despertou das brumas e abandonou a tela ao seu erótico
perfume. Sentia os membros pesados e dormentes e a vista inadaptada
à intensidade da luz.
Ainda
se ficou a contemplar o quadro, demoradamente, mas não
se despediu porque isso lhe era impossível. Nunca o veio
a adquirir pois soube desde logo que as suas paredes, tal como
as daquela galeria, não eram suficientemente amplas para
a mensagem que, num envolvente e delicioso secretismo, o autor
tencionava transmitir. A tela devia ser pertença exclusiva
da Natureza, ou de alguma outra entidade igualmente grandiosa
e indomável.
Além
disso, temia demasiado que àqueles dois corpos, construídos
em duas simples pinceladas rosa, ocorresse em alguma ocasião
o cansaço do seu quarto encolhido na tela e se resolvessem
a escapar dos limites da moldura. Então, seriam livres
para lhe povoar os sonhos de arrebatamento, a perseguir na noite
imensa e lhe transformar em fogo os alvos lençóis
e a amarrotada colcha de linho que, nos momentos de maior desordem,
pende cama abaixo até roçar no chão!