8
febrero 2002

Helena
 
de Sousa
 
 Freitas


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COMO UM MAPA EM TUAS MÃOS

 

Em tuas mãos de seda feitas...
há rotas de finos tecidos
que o meu corpo vai percorrendo.

Em tuas mãos de pele meiga...
há traçados invisíveis
que o meu destino vai tecendo.

Há lugares desconhecidos
que encantariam exploradores
... em tuas mãos perfumadas.

Em teus dedos de cetim...
há um mapa das Índias
com especiarias cobiçadas.

Em teus dedos aromáticos...
há suaves rasgos de pecado
que me deslumbram os sentidos.

Há uma geografia indizível
como os caminhos de Cartago
... em teus dedos refletidos.

 

Helena de Sousa Freitas

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BOA NOITE SOBRE A TERRA

 

A noite abre-se,
quente e seca,
sob o Céu, sobre a Terra.
Espreguiça-se, languidamente,
e abraça o Mundo
com os seus braços finos.

Tem uns olhos grandes,
escuros e espantados
e uma voz melodiosa,
de grilos e cigarras.

Mas esta noite
está irrequieta,
em desassossego:
repara como os solos ardem,
como as árvores se abatem,
como os homens se perseguem e mutilam.

A noite está descontente.
Abre a boca, solta um grito:
- Um raio rasga a Terra,
uma chuva intensa começa a cair.
O dilúvio alaga os continentes
e extingue a vida humana.

É a noite que está a chorar...
... desconsolada.


Helena de Sousa Freitas

 

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FRAGILIDADE

 

Fiquei frágil
de repente
as forças dissolvidas
em espuma e delírio,
numa ausência de certezas.

Como não temer o que se mostra
do que se sente
quando o chão nos escapa
debaixo do corpo?

Acreditar em que palavras
quando tudo o que se escreve
nos deixa sem resposta,
nos confunde e derrota?

A dúvida alastra e devora-me.
Cada degrau vacila.
Só o que se pressente é
timidamente seguro.

O Sol instalado nos dias
já nada nos diz.
Apenas fere fundo o espírito
e os pés solitários na terra fria.

Onde tudo em mim é bulício,
engano e abandono
permanece,
mal esquecido,
um gesto teu.


Helena de Sousa Freitas

 

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POEMA DE PAPEL

 

Livro

Abres um livro
pões-te a lê-lo.
Folheias,
marcas,
sublinhas, se calhar.

Viras-lhe a capa
desdobras
as bandas, se as tiver,
e colocas o livro
no lugar.


Folhas

Passas os dedos
no papel claro,
nas linhas finas,
nas notas por apagar.

Vês as frases,
com ou sem rumo,
e és quem decide:
recuas ou deixas-te levar.


Texto

Enfim prosseguiste
na viagem ao livro,
no rasto das palavras.
Uma corrente de letras
quer fazer-te render
de uma às outras páginas.

Se o conto te envolve
já estás enredado
dentro dessa história.
Esquecido do mundo,
reflectes no que lês,
constróis mil imagens.

No mergulho ao texto,
que dás sem sentir,
enrola-se a trama.
E então não és tu,
já sem saberes de ti,
mais do que as personagens.

 


Helena de Sousa Freitas

 

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ADEUS, CAPITÃO

 

Nas ruas
os meninos órfãos
erguem em preces a voz:
- Estão perdidos!

Assim se sentem os marinheiros,
as corajosas e sensuais mulatas,
os místicos nos seus terreiros,
os malfeitores, os bandidos.

E a andorinha e o gato malhado?
O cacau, o Carnaval, a Bahia?
O suor, o soldado apaixonado?
Que milagre lhes ditará sorte?

Oh Capitão, meu Capitão
que das mornas areias
criaste um reino de poesia
e nos mares leste a morte...

Que farão todos agora
sem o tempero das tuas frases,
sem o suave embalo tropical
das histórias que ao Mundo deste?

Como viver hoje no luto
o gosto das palavras que,
amando,
Amado,
escreveste?


Helena de Sousa Freitas

 

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